Falar de um assunto tão íntimo como uma crença, uma religião, é algo extremamente difícil. A grande maioria das pessoas critica sem piedade dogmas e crenças contrárias ao seu próprio pensamento, ao passo que quando criticadas, respondem de forma agressiva e intolerante. De fato, é mais fácil criticar ao outro do que a si mesmo.
As charges
publicadas semanalmente pelo jornal Charlie Hebdo criticavam avidamente
crenças, costumes e assuntos considerados tabus, como a representação de Maomé
(que é proibida) do mundo islâmico. Em 2011, uma charge publicada teve grande
repercussão no mundo islâmico e os cartunistas do jornal foram violentamente
ameaçados. Desde então, criou-se um clima tenso entre grupos extremistas
muçulmanos e a equipe do jornal, composto de publicações e ameaças, ameaças e
mais publicações. Nenhuma delas foi suficiente para calar o jornal, nem mesmo
após o atentado.
Esse ataque ao
escritório do Charlie Hebdo levantou questões que vão bem mais além da
violência ou dos grupos terroristas existentes, apesar de ter sido considerado
a reação mais violenta entre jornalistas e terroristas no mundo ocidental.
Nesse cenário, discute-se também sobre os limites do humor. Mas a discussão não
deve centrar-se somente nisso.
Em um país
como a França onde a minoria muçulmana geralmente não é bem vista e onde muitos
mantém o pensamento conservador contra a imigração, o discurso que ridiculariza
e ofende essa categoria da população vem a calhar.
As charges críticas feitas pelo jornal foram usadas, mesmo que seu
objetivo não fosse esse, como uma poderosa arma de propagação do preconceito e
da estigmatização. Em muitas delas, muçulmanos eram retratados constantemente
como terroristas de forma genérica.
Frisamos que nossa posição como grupo é totalmente contra ao atentado e
aos grupos terroristas pertencentes ao Estado Islâmico. A questão abordada aqui
visa informar interesses presentes em todo o episódio de crítica aos muçulmanos
até os fatos que culminaram nas 12 mortes, que vão além dos interesses
libertários e relacionados aos direitos humanos. Haviam, também, questões
relacionadas a imigração árabe.
Um acontecimento trágico como esse atentado deveria levar a grande massa
a refletir se vale a pena toda essa crítica extrema. Sempre haverão pessoas
religiosas, sempre haverão contrários às crenças alheias. Não só no campo
religioso, mas sempre haverão pensamentos divergentes dentro de qualquer área. O
extremismo levou Charlie Hebdo a propagar a ideia (talvez inconscientemente,
talvez não) de que todos os muçulmanos são terroristas e que o profeta deles é
motivo de piada. Também levou o Estado Islâmico a executar 12 cartunistas, que
tinham todo direito de discordar e manifestar sua opinião seja em forma escrita
ou em desenho.
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