segunda-feira, 11 de maio de 2015

Extremos por todos os lados


Falar de um assunto tão íntimo como uma crença, uma religião, é algo extremamente difícil. A grande maioria das pessoas critica sem piedade dogmas e crenças contrárias ao seu próprio pensamento, ao passo que quando criticadas, respondem de forma agressiva e intolerante. De fato, é mais fácil criticar ao outro do que a si mesmo.

As charges publicadas semanalmente pelo jornal Charlie Hebdo criticavam avidamente crenças, costumes e assuntos considerados tabus, como a representação de Maomé (que é proibida) do mundo islâmico. Em 2011, uma charge publicada teve grande repercussão no mundo islâmico e os cartunistas do jornal foram violentamente ameaçados. Desde então, criou-se um clima tenso entre grupos extremistas muçulmanos e a equipe do jornal, composto de publicações e ameaças, ameaças e mais publicações. Nenhuma delas foi suficiente para calar o jornal, nem mesmo após o atentado.

Esse ataque ao escritório do Charlie Hebdo levantou questões que vão bem mais além da violência ou dos grupos terroristas existentes, apesar de ter sido considerado a reação mais violenta entre jornalistas e terroristas no mundo ocidental. Nesse cenário, discute-se também sobre os limites do humor. Mas a discussão não deve centrar-se somente nisso.

Em um país como a França onde a minoria muçulmana geralmente não é bem vista e onde muitos mantém o pensamento conservador contra a imigração, o discurso que ridiculariza e ofende essa categoria da população vem a calhar.

As charges críticas feitas pelo jornal foram usadas, mesmo que seu objetivo não fosse esse, como uma poderosa arma de propagação do preconceito e da estigmatização. Em muitas delas, muçulmanos eram retratados constantemente como terroristas de forma genérica.

Frisamos que nossa posição como grupo é totalmente contra ao atentado e aos grupos terroristas pertencentes ao Estado Islâmico. A questão abordada aqui visa informar interesses presentes em todo o episódio de crítica aos muçulmanos até os fatos que culminaram nas 12 mortes, que vão além dos interesses libertários e relacionados aos direitos humanos. Haviam, também, questões relacionadas a imigração árabe.

Um acontecimento trágico como esse atentado deveria levar a grande massa a refletir se vale a pena toda essa crítica extrema. Sempre haverão pessoas religiosas, sempre haverão contrários às crenças alheias. Não só no campo religioso, mas sempre haverão pensamentos divergentes dentro de qualquer área. O extremismo levou Charlie Hebdo a propagar a ideia (talvez inconscientemente, talvez não) de que todos os muçulmanos são terroristas e que o profeta deles é motivo de piada. Também levou o Estado Islâmico a executar 12 cartunistas, que tinham todo direito de discordar e manifestar sua opinião seja em forma escrita ou em desenho. 

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