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| Foto: acervo pessoal |
Para entender a repercussão de um fato isolado, é fundamental levar em conta a opinião de outros. Pensando nisso, o blog resolveu entrevistar pessoas que tivessem uma relação mais direta com a cultura francesa, para saber o que pensam à respeito do atentado contra o jornal satírico francês Charlie Hebdo. Uma delas foi Vivian Ferreira, estudante de francês do CEL (Centro de Estudo de Línguas). Além de ter contato com a cultura francesa nas aulas, Vivian foi uma das alunas escolhidas para um programa de intercâmbio pela Secretaria da Educação, tendo visitado a França no final de 2014. Ela deu sua opinião sobre o caso e falou sobre a hipótese de algo desse tipo acontecer no Brasil.
Blog: O que você acha sobre o atentado ocorrido no inicio do ano ao
jornal Charlie Hebdo?
Vivian: O atentado ocorreu pouco tempo depois do meu retorno da França ao Brasil, porém em Paris, eu estava em Nice, mas ainda assim fiz questão de acompanhar o que se sucedeu após o atentado por ainda estar muito ligada a França. Em meio aos "je suis Charlie" [eu sou Charlie], eu dizia "je ne suis pas" [eu não sou]. Não defendo de forma alguma qualquer tipo de atentado terrorista, muito menos qualquer tipo de violência. Violência esta que o Charlie Hebdo também praticava, com suas charges que ultrapassavam a crítica para chegar ao desrespeito. Resumindo o atentado em apenas uma palavra, eu diria; choque.
B: Na sua opinião, as charges publicadas pelo jornal eram ofensivas?
Por que?
V: Sim. O jornal publicava charges zombando de diversas religiões, deixando de ser crítico para ser desrespeitoso, como por exemplo com a charge que representava Maomé. A primeira lei/regra/mandamento dos muçulmanos é não criar representações de seu Deus. Ou a charge que representava uma cena sexual entre Deus (o Cristão), o Espírito Santo e Jesus Cristo. Se ele tinha a intenção de defender o direito a liberdade de expressão, estava de contradizendo, pois escolher seguir determinada religião também faz parte da liberdade de expressão, e o respeito tem de ser mantido para com todas as partes.
B: O que você sabe sobre a imigração árabe na França? Acha que
isso está relacionado com a repercussão do atentado?
V: A França, e a Europa no geral, sofre seriamente com a xenofobia, principalmente contra árabes e africanos, por conta de preconceitos raciais, mas principalmente religiosos.
B: Você se interessa por charges críticas? Acha que é algo fácil de
se encontrar no Brasil?
V: Sim, é o único tipo de charge ao qual me interesso, porém só há facilidade em encontrá-las na internet, onde não há censura alguma, afinal, sabemos que os grandes veículos de comunicação são controlados e que há sim certa censura.
B: Você imagina que algo como o caso do Charlie Hebdo poderia
acontecer no Brasil? Por que?
V: É uma pergunta difícil de se responder com a objetividade do "sim ou não", porém na minha opinião a resposta pesa mais para o "não". Nós somos o país da diversidade, e temos uma tolerância muito maior com os nossos imigrantes do que os europeus com os seus. Sendo assim, creio que não criaríamos charges tão polêmicas quanto as do Charlie Hebdo, tanto quanto sofreríamos um atentado por conta disso, tendo um pouco de todas as culturas e religiões espalhadas por todo o Brasil.
B: O que você pensa sobre a censura religiosa em geral?
V: Resumindo a censura religiosa em poucas palavras, eu diria retrocesso.
B: Acha que as críticas de modo geral (seja contra a sociedade, o
governo ou a alguma crença) fazem parte do direito de liberdade de
expressão?
V: Com certeza! Por isso lutamos tanto por uma democracia, para termos o direito de liberdade de expressão. Porém criticar é diferente de desrespeitar, agredir (física ou moralmente).
